Killing Fields: os campos de concentração

O Camboja passou por uma história muito triste e muito recente e que explica a razão de vermos tantas crianças órfãs na rua e tantas pessoas mutiladas. Fomos para a capital, Phnom Pehn buscando conhecer mais a história do país e visitamos o Killing Fields de Choeung Ek. Eu já estava tentando me preparar psicologicamente para visitar lá faz tempo… Quem me conhece bem sabe que eu choro por qualquer coisa, no Killing Fields não podia ser diferente.

Em 17 de abril de 1975, Phnom Pehn foi tomada pelo Khmer Rouge, um exército comunista liderado por um – com o perdão da palavra – filho da puta, Pol Pot. Não posso chamá-lo por um adjetivo que signifique menos do que monstro. Em um curto período de tempo Pol Pot tentou implantar um sistema radical socialista e mandou toda a população da cidade para os campos, separando milhares de famílias e obrigando as pessoas a cumprirem longas jornadas de trabalho, mais de 12h por dia, não importando se estavam doentes ou velhas.

Muitas pessoas morriam de fome ou por doenças. Monges, professores, intelectuais foram perseguidos, torturados e mortos, o simples fato de se falar outra língua ou de usar óculos era motivo para se matar alguém. Uma simples denúncia falsa podia ser motivo para se suspeitar de que a pessoa era contra o regime e matá-la. Crianças também eram mortas como forma de se evitar que elas vingassem a família algum dia. Pol Pot espalhava minas terrestres pelo país, segundo ele, eram seus “soldados perfeitos” e ao mesmo tempo a Guerra do Vietnã começou a invadir parte do Camboja espalhando mais minas terrestres ainda. Pare de ler aqui se você for dos mais sensíveis.

O Killing Fields era mais um dos inúmeros campos de concentração espalhados pelo país, construídos para matar pessoas. Quando você chega, vê um lugar tranquilo, que transmite paz, cheio de árvores, de verde e de crianças correndo por ali com um lindo memorial erguido no meio. Difícil imaginar que toda essa paz de agora foi um lugar de sofrimento e morte. O memorial guarda os crânios e ossos dos cadáveres das mais de 8000 vítimas que foram encontradas ali.

A entrada para o Killing Fields custa $5 dólares e inclui um audio guia. Na entrada você recebe um mapinha e vai parando nos pontos indicados e vai ficando cada vez mais chocado com o que ouve.

O pior momento foi ver a árvore mágica. Você para diante da tal árvore e o audio explica que naquela árvore eram penduradas caixas de som que tocavam música do partido o dia inteiro. De dia servia para animar as pessoas a trabalhar, à noite a música era usada para abafar os gritos de dor das pessoas que eram torturadas e mortas. Quando o áudio começa a tocar a música, que era o último som que as pessoas ouviam antes de morrer você se põe no lugar de cada pessoa que morreu ali e sente muita dor.

Matava-se com tudo. As balas eram muito caras, então eles usavam machado, pá, ácido, até pedaço de árvore para cortar a garganta. Um dos momentos mais chocantes é quando você para em frente a uma árvore cheia de fitinhas… e o áudio explica que aquela árvore era usada para arremassar os bebês e não gastar com balas. Não tenho o que dizer.

Não se sabe o número certo de mortos mas estima-se que tenham sido mais de 3 milhões e agora um fato chocante: o regime de Pol Pot durou quase 4 anos. Sim, eles não mataram essas pessoas ao longo de décadas, mas sim de 1975 até 1979 quando os vietnamitas libertaram o país.

Sai de lá com dor de cabeça de tanto chorar, não tive estômago para tirar foto de nada. Depois disso íamos visitar a S21, a prisão de onde vinham muitos dos prisioneiros que morriam no Killing Fields, mas eu não queria ver absolutamente mais nada, foi uma experiência extremamente dolorosa e minha cabeça estava explodindo. Todo o horror que as pessoas passaram pelas mãos do próprio país… E isso é muito recente, pensar que qualquer pessoa com mais de 37 anos estava lá quando isso ocorreu. Olho para os cambojanos agora e sinto um carinho, respeito e admiração por tudo o que passaram e pela luta que foi tentarem reconstruírem suas vidas de novo… Sinto também muita raiva, como pode? O pior é que esse filho da puta teve uma vida boa, morreu com 80 anos e perto da família. O que é justo?

Ao mesmo tempo você olha para sua vida, lembra das coisas que sempre reclamou, dos teus problemas, e perto disso tudo… não é nada. Sei que cada um sabe o peso dos seus problemas, mas sejamos honestos… É possível achar sua vida uma merda depois disso? Parece que nada mais faz sentido quando você sai de lá… você se sente impotente… com vergonha de si mesmo e de tudo o que você considerava ser um problema na sua vida.

Você olha para as pessoas aqui, tentando reconstruir suas vidas, olha como elas conseguiram passar por tudo isso, olha os sorrisos no rosto e descobre por fim que é possível ser feliz com muito pouco, é possível curar todas as feridas, é possível superar todas as dores. É possível recomeçar tudo de novo e ser feliz. Nunca mais quero reclamar de nada.

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O Camboja é um dos países com maior concentração de minas terrestres no mundo, com pelo menos 4 milhões de dispositivos. Uma em cada 290 pessoas já sofreu uma amputação e 1 em cada 3 são crianças.

Siem Reap e Phnom Penh

Nossas primeiras impressões sobre o Camboja se fizeram em Siem Reap, a primeira cidade que visitamos. Não sei se é o lugar certo para se ter uma noção exata do Camboja já que Siem Reap é a cidade base para se visitar os templos de Angkor o que a torna extremamente turística. É uma cidade bem gostosa, cortada pelo rio Siem Reap (que criatividade para o nome, rs…) e devo dizer que é bem aconchegante.
Tem a Pub Street que é a rua com barzinhos e baladas… super turística, bem agitada e barulhenta demais para o meu gosto, mas ok… Comíamos toda a noite nas barraquinhas ali perto.

Aliás… não estou achando o Camboja tão barato assim. Aqui eles usam dólares e o riel que é a moeda local, mas todos os preços – em restaurantes, hotel, barraquinhas – são cobrados em dólar. O riel funciona geralmente como o troco para valores abaixo de um dólar. 4000 riels = 1 dólar, bem fácil fazer a conversão. No ATM só é possível sacar em dólares.

Como já comentei anteriormente nos últimos 2 posts, se for para Siem Reap, TEM que ir no Angkor National Museum, caro ($12) mas mais do que vale a pena.
O negócio de Siem Reap é visitar os templos mesmo, se você ficar na cidade acho que é gostoso ficar só passeando pelas night markets, tomar uma cerveja Angkor nos barzinhos da Pub Street, comer nas barraquinhas… O clima é totalmente diferente da capital, Phnom Pehn, para onde seguimos depois de passar 5 dias em Siem Reap.
Muita poluição, trânsito horrível, mesmo esquema da Tailândia: reza braba na hora de atravessar a rua. Motos carregando de tudo: 5 pessoas, galinhas vivas penduradas, plantas… É incompreensível, não entra na minha cabeça a forma que eles lidam com o trânsito, não tem coisa mais comum do que você estar num tuktuk e passar uma moto desviando porque está na contramão. Eles sempre andam na contramão, cortam o trânsito para qualquer direção, é horrível!!!
Apesar de tudo isso Phnom Pehn não deixa de ter seus momentos agradáveis, como a beira-rio do Tonlé Sap com seu largo calçadão.
Em Phnom Pehn você encontra barraquinhas e restaurantes baratos em qualquer esquina, não precisa andar muito. Outra opção boa é o Night Market que só abre de sexta a domingo. Lá além de roupas e souvenirs você também encontra noodles e espetinhos de tudo quanto é coisa: asinha de frango, carne, lula, camarão… A graça é pegar uns espetinhos e comer nas esteiras do chão.
Sorry, minha máquina não é boa para fotos noturnas…rs…

Bem, todo mundo sempre me pergunta se já comi alguma coisa estranha e agora respondo que sim. Em Phnom Pehn tive minha primeira experiência bizarra na cozinha. Resolvi pedir os embriões de pato que são super tradicionais aqui. Pedi frito. O problema é que vem três. O gosto é uma mistura de frango com ovo, mas a textura é muito esquisita e inclusive você consegue identificar os órgãos dentro.
Passei para o Rômolo comer e a cabecinha do pato caiu na mesa =( Todo mundo experimentou e ninguém gostou, então fui obrigada a comer os outros 2 ovos sozinha. O primeiro desceu super bem… o segundo já foi empurrado e o terceiro… não rolou, já estava quase vomitando. Credo. Nunca mais.

Agora, sem levar o embrião de pato em consideração, a comida no Camboja é maravilhosa, claro que nunca dá para comparar com a da Tailândia que é insuperável. No momento o Amok – frutos do mar com curry e leite de coco – lidera o primeiro lugar no meu ranking de melhores pratos que comi na viagem.Geralmente é servido dentro de um coco, numa tigelinha ou na versão minimalista dentro de uma folha de bananeira dobrada, sempre acompanhado de arroz branco:
Alegria: Os pratos no Camboja não são tão apimentados quanto os tailandeses! Uma refeição custa em média entre $1.50 e $3, $2 é o preço ideal. Gente, sério, tem que cortar esse negócio de não comer nas barraquinhas porque tem nojo, sei que é difícil porque em São Paulo eu era assim… mas aqui a gente toma suco com gelo, come nas barraquinhas mais podrinhas e em quase 2 meses viajando não passamos mal. Minto. Teve um dia que passei mal do estômago, foi quando comi um hamburguer super caro num restaurante “limpo”. As aparências enganam.

Além da comida, Phnom Pehn tem bastante de história para oferecer: O National Museum of Cambodia ($3), o Killing Fields ($5) e o Tuol Sleng Museum ($3). Bem, eu resolvi mergulhar de vez na mitologia hindu então adorei o National Museum que complementou o que eu já tinha visto no museu de Siem Reap e nos templos de Angkor. Mas acho que você tem que estar bem interessado no assunto porque acho que a Kelly e o Kevin que foram com a gente não pareciam estar curtindo muito…rs… Eu demorei muito tempo lá porque quis ler todos os textos explicativos. O museu não é o mais lindo do mundo, algumas peças não estão muito bem cuidadas, expostas ao sol… e apesar da falta de ar condicionado a construção do museu em si é bem bonita e agradável com um jardim no meio. Não visitamos o Tuol Sleng Museum e eu explico no próximo post o motivo, onde dedico um post inteiro à triste história do Camboja que encontramos no Killing Fields.

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Dicas:
Não se hospede de jeito nenhum no Golden Home Guesthouse em Phnom Pehn, o cara que ficava na recepção era extremamente rude e sarcástico. Começou a nos tratar pior ainda quando viu que não queríamos comprar nada lá no hotel – visto para o Vietnã, passagem de ônibus, etc. – Não recomendo jamais!!!