Bangkok: Lá e de volta outra vez

E lá estávamos nós de volta ao ponto zero da viagem: Bangkok meu amor. É muito estranho viajar para um lugar e voltar lá depois de um tempo, ainda mais estranho porque Bangkok foi nossa primeira e última cidade.

Quando estávamos em Pequim, nossa última semana na China depois de quase 2 meses, nós não víamos a hora de voltar para o Brasil. Estávamos realmente empolgados com a possibilidade de comer um pão de queijo, almoçar uma feijoada, tomar um guaraná e tomar brejas nos botecos sujinhos da cidade com os amigos. Fato: estávamos MUITO cansados da China. O Felipe e a Mariana – um casal de brasileiros que conhecemos em Chengdu e que já estavam na estrada há mais de um ano – pareciam estar mais empolgados que a gente. Os caras estavam indo para a Mongólia e falavam da nossa volta do Brasil como se estivéssemos indo para um destino super novo e incrível. O Felipe até parecia se emocionar quando dizia: “Poooorra, vocês vão comer aquele feijãozinho! Que sonho!”. Porra Felipe, vocês estão indo para a Mongólia! rs…

Mas afinal… não havia o Brasil se tornado um destino novo e incrível?

Pegamos um longo vôo pela Air Asia, trash né… Aqueles vôos baixo custo que cobram até para você despachar a própria mala.

Bem, foi na rápida conexão de três horas na Malásia, em Kuala Lumpur que o coração começou a fraquejar… Mas e se… a gente viesse passar um mês na Malásia? Foi o tempo de trocar uns dólares por uns ringgits para poder comprar um sanduíche e já chegava o nosso voo para Bangkok despedaçando os meus sonhos.

Sabe quando você se apaixona por uma pessoa, passa um tempo, vocês não se veem mais, e depois de anos, quando se encontram, é o mesmo frio na barriga? Bangkok. Eu não lembrava o quanto eu amava esse lugar depois de ter passado por tantas outras cidades incríveis. Mas não dá. Não sei se é o contraste com a China, mas Bangkok me pareceu muito mais incrível do que era antes. É aquela emoção rara que sinto em algumas cidades e que me faz ter vontade de chorar só por estar lá. Comer o pad thai de novo… até andar na Khao San Road, que eu achava que já estava de saco cheio, me emocionou. Parecia tudo novo mais uma vez e eu senti aquela força que me faz querer viajar mais léguas por meses.

No nosso único dia completo que tivemos lá visitamos a Bienal de Desenhos no Bangkok Art and Culture Centre, assistimos finalmente uma luta de muay thai e fechamos a noite comendo naqueles restaurantes podrinhos mas que têm o melhor pad thai do mundo.

Preciso falar do muay thay. Da primeira vez que chegamos em Bangkok nós não tínhamos o mínimo interesse em assistir luta. Nunca gostei de lutas e sequer considerei assistir um Muay Thai. Alguma coisa mudou nesse tempo. Eu não acho luta legal, mas consegui entender mais algumas coisas. Primeiro: somos humanos, somos animais, temos instintos e o mundo não é bonito, jamais será. Consigo entender o Muay Thai como parte da cultura e como reflexo dos nossos instintos. Acho que ir no Lumpinee Boxing Stadium e ver o modo como as pessoas ficam enlouquecidas na platéia, me mostra como a luta é um reflexo do animal que contemos dentro de nós. É parte do instinto do homem a luta corporal, mas é uma coisa que tentamos reprimir pelo fato de vivermos em uma sociedade, seria loucura tentar resolver as coisas desse modo. Quero tentar entender a cultura por mais bizarro e chocante que ela seja para mim. O fato dos chineses escarrarem no chão toda hora ou comerem cachorro não deve ser condenado, o Muay Thai também não. E foi com esse espírito que fomos assistir a luta.

O Lumpinee Boxing Stadium foi uma das experiências mais incríveis que tivemos na viagem. Pagamos 1000 bahts pelo ingresso, o mais barato que tinha, para assistirmos à luta no terceiro anel. Você também pode pagar 2000 bahts, vai ficar do lado de um monte de gringos, na frente do palco e nenhum local vai puxar assunto com você ou gritar no seu ouvido, ou seja: zero de emoção!
IMG_5586 IMG_5593Ficar no terceiro anel, implica em ter uma grade meio chata na sua frente, mas é onde a galera vai gritar, fazer as apostas loucamente e tentar conversar com você, acho que estar lá valeu muito mais do que ver a luta propriamente dita, você entra no clima e é um negócio meio Clube da Luta, as arquibancadas meio sujas, um lugar meio escuro, parece até que você está assistindo uma luta clandestina. É muito bom, dá uma adrenalina terrível ver a luta dali, coisa animalesca mesmo como eu disse antes. Bangkok fechada com a chave que eu não esperava.

Até o último momento eu ainda estava esperançosa de tentar convencer o Ro a viajar mais um mês. Chorei muito na última noite em que passamos em Bangkok, como quem está terminando um relacionamento mesmo. No dia seguinte, dia de pegar o avião, esfriei. Não chorei mais. Consegui entender que ainda teríamos que ter a chamada vida normal pela frente, e que eu não poderia considerar isso uma merda pelo resto da minha vida. Uma hora teria que voltar para a realidade não? A menos que eu decidisse passar anos levando uma vida nômade, mas eu tenho vontade de ter um lugar pequeno e confortável para receber os amigos, uma cozinha agradável para cozinhar e filhos para daqui uns pares de anos. Também não vou parar com as viagens jamais, mas tenho que conciliar isso com aspectos de uma vida tradicional e tornar a vida leve e doce. Lembro que o monge me disse que eu não devia me preocupar por antecipação, ficar ansiosa pelo futuro, que eu devia viver o presente. É muito óbvio e fácil dizer “viva o presente”, mas como fazer isso? Finalmente entendi. Acho que nunca estive tão conectada ao meu presente. Não quero vivê-lo mais em função de um futuro que eu espero acontecer. Passei meu último ano antes de viajar levando o presente nas coxas, pensando que eu só estava vivendo aquilo para esperar o futuro, a viagem. Foi meu último presente desperdiçado.
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5 respostas em “Bangkok: Lá e de volta outra vez

  1. Nã, ler seu post me fez voltar a Bangkok e viver exatamente o mesmo sentimento de reencontro que você descreveu… a Tailândia realmente tem alguma coisa. E tenho certeza que um dia eu volto! Beijo e sucesso na vida real e no presente! 😉

  2. Nã, que delicia ler este post! Não sabia que tinha se apaixonado tanto por Bangkok! Sabe que este é meu lema agora… preciso aprender isso, por mais difícil que seja…: “que eu devia viver o presente.” É de fato difícil, mas um exercício necessário. Beijo

  3. Eu estou lendo seu texto antes de viajar! e refleti muito sobre a saudade das comidas, do pão de queijo, do “feijãozinho”! O que vou dizer não se aplica a todo mundo, somente a mim: eu sei que esse determinado sabor eu só encontrava em São Paulo – onde não moro mais, pois me mudei pro interior e depois pro interior do Nordeste.. onde não tenho mais costume de comer na rua. O pão de queijo e o feijão que eu faço em casa não são gostosos, não são aqueeeele que a gente guarda na lembrança. Então me joguei a real: eu não tenho esse sabor no meu dia a dia, talvez se voltasse a viver em SP, na rotina do café na rua, do prato feito rs…. sou péssima cozinheira – e órfã – e esse é um dos motivos de ir pra tai, não cozinhar mais! Se bater a vontade, espero me lembrar de que é irreal… rs

  4. Depois de muito tempo entrei nesse blog novamente…a 1a vez tinha sido qdo estava a procura de informações sobre o monge tatuado, estava planejando a viagem para Novembro de 2014. Nossa que viagem mais perfeita! Foram 22 dias, ficamos somente na Tailandia, começando em Bangkok, seguindo por Chiang Mai, Ko Samui, Railay Beach, Phi Phi Island, Phuket e finalizando em Bangkok novamente. Dias mágicos! Sim, porque lá a energia atua quase que em forma de um encantamento, vc fica mais leve, alegre, amável… Pude encontrar a felicidade em varias formas e voltei com outros valores em minha vida. Hoje, praticamente 10 meses depois, ao ler seu post me deu uma saudade imensa, pude relembrar com detalhes, e a sensação é realmente essa ” Comer o pad thai de novo… até andar na Khao San Road” novamente. Aprendi muito nessa viagem, e espero voltar muito em breve. Sinto como se a Tailândia fosse o meu lugarzinho no mundo.

    Um beijo!
    Camilla

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