O que a viagem me trouxe e até a próxima!

Sou grande fã da pintora Frida Kahlo, adoro os quadros dela porque tem uma carga muito pesada ali, carregam uma história incrível que foram as tragédias da vida dela… Tem um quadro em específico de que me lembrei para escrever esse último post do blog… E o nome para português seria “O que a água me trouxe” (ou O que a água me deu).
É um quadro bem triste na verdade… porque é ela mergulhada na banheira e alguns momentos da vida dela que flutuam na água…
what-the-water-gave-me-1938Porra, na verdade é MUITO triste, porque eu coloquei isso aqui? rs…

Bem, quando eu penso no que a viagem me trouxe eu também poderia me imaginar mergulhada numa banheira com tudo o que me marcou flutuando… Vejo amigos, lugares, momentos e vejo uma porta aberta que se abriu com novas possibilidade, uma nova forma de encarar a vida que ganhei e que não há dinheiro que pague no mundo… um sonho que se realizou e que sem dúvidas vai seguir em frente… quero viagens longas como uma constante na minha vida.

Conheci pessoas muito especiais que já reencontrei algumas vezes… o Marcos que conhecemos em Chiang Mai e que vira e mexe saímos para tomar uma breja, o Fe e a Mari que moram em São Paulo, o Gus do Rio… a Kelly que vem nos visitar com Antonio na Copa… e vou falar também da Gisele que é uma das coisas que me deixam feliz em ter feito o blog. A Gi era uma das leitoras, já acabamos nos encontrando algumas vezes – ela até veio comer pad thai aqui em casa, rs… – e agora é a vez dela fazer a trip para a Ásia em janeiro de 2013! Muitas pessoas vieram me adicionar no Facebook também e vira e mexe trocamos uma ideia… Quer dizer… ganhei amigos indiretamente por causa da viagem.

Queria agradecer a todos que acompanharam o blog, todos os comentários me incentivando a continuar… Ja tive muitos blogs, mas esse é o primeiro que consigo ir até o fim!!!! Fecho esse blog com lágrimas nos olhos, emocionada por tudo “o que a água me trouxe”, e com o conselho clichê: Não deixem a vida passar!!!! não deixem, que a vida é curta e o mundo é grande… e fecho com uma frase muito verdadeira da Clarice Lispector: “Depois do medo, vem o mundo.”

Mil Beijos e uma vida doce para vocês!
Nã =)

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Buscando o caminho de volta

Depois de viajar esses meses descobri que o difícil não era partir: era voltar. Como seria esse choque, essa mudança de uma vida sem rotina, uma vida de descobertas diárias para a mesma vida que eu tinha antes, uma vida de trabalhos chatos, de stress, de frustração?

Perai, quem disse que eu ia voltar ao ponto zero?

Minha vida é o que eu quero. Essas conversas sobre a volta eram bem recorrentes com outros viajantes. No fundo dá um medo mesmo. E nos primeiros meses da viagem eu confesso que eu estava MORRENDO de medo de voltar. Estava tudo tão perfeito que acordar daquele sonho me assustava. Eu tinha pesadelos constantes em que eu voltava para casa e entrava em depressão. Acho que pensei tanto sobre isso com antecedência que fui me acostumando cada vez mais: eu ia ter que voltar sim, arranjar uma casa e um emprego para pagar o aluguel.

O que ajudou muito foi o fato de não termos gastado tanto nessa viagem quanto achávamos: eu tinha dinheiro para me sustentar por algum tempo sem trabalhar. E quero dizer aqui que eu realmente não havia considerado muito a grana da volta, mas hoje vejo isso como parte importante do planejamento. Você nunca sabe quanto tempo vai demorar para arranjar um novo emprego, então é bom ter alguma garantia, um dinheiro para poder fazer algum curso de atualização por exemplo.

Minha volta foi muito melhor do que eu esperava, lembro com uma saudade boa de todos os momentos que passamos, orgulhosa, satisfeita, feliz, com a certeza de que cumpri uma missão importante em minha vida. Felicidade é estar aonde você gostaria de estar e estou muito bem na minha amada São Paulo. Mas também tivemos essa grande mudança de eu ter saído da casa dos meus pais e voltado para morar com o Rô, então a volta para o Brasil foi como uma nova viagem, uma experiência nova.

As primeiras velhas novas impressões de Sampa…

As primeiras velhas novas impressões de Sampa…

Aprendi a redescobrir a cidade, ver com novos olhos, viajar dentro da minha própria cidade. Alugamos um apê no centro e agora a casa está aberta para CouchSurfers… Couch Surfing é muito bom não só para quem é recebido, mas também para quem recebe. É uma forma sim de continuar viajando, tenho vontade de explorar cada vez mais a cidade e poder compartilhar com quem vem visitar. Moro em São Paulo desde que nasci, mas só esse ano subi na Torre do Banespa, comprei pão dos monges no Mosteiro São Bento e fiz uma das aulas de dança gratuitas que sempre rolam na Galeria Olido. Só agora.

Tenho muitos amigos, muitos mesmo que sofreram demais com a volta. Alguns não encontraram emprego ainda [atualização: todos os amigos que conheci na viagem já estão trabalhando de novo ;] , outros encontraram mas estão achando muito difícil ter que lidar com a rotina… são reclamações das mais variadas, mas não há como prever o que pode acontecer. Também há outras amigos que estão satisfeitos de estarem de volta em casa, e assim como nós reservando energias para a próxima viagem… claro!

Se você voltar, você provavelmente estará voltando porque quer… quem quer ficar com o pé na estrada sempre acaba dando um jeito de se manter, de fazer contato, arranjar bicos… quantas pessoas não conheci que faziam isso? Seus desejos devem te guiar, você deve dirigir a sua vida de um jeito que faça você se sentir bem. Tenha paciência que isso é uma das coisas que só o tempo vai resolver.

Vai voltar, volte, mas venha com o coração aberto… sofrer pode fazer parte da volta sim. Mas você sabe que para daqui uns anos vai olhar para tras e ver que esse tempo que você passou viajando, valeu muito mais do que um ano que você poderia ter passado naquele emprego que você achava uma merda.

Viajando pela minha cidade…

Viajando pela minha cidade…

Uma vez fui assistir um filme que se chamava assim: “Viajo porque preciso, volto porque te amo.” Essa frase se encaixou com a minha (nossa) viagem. Eu preciso viajar. Eu nunca mais vou parar, tenho certeza. Viajar assim é um caminho sem volta, droga das mais pesadas. E eu vou voltar também. Porque também amo São Paulo, amo as pessoas que estão aqui, amo as esquinas da minha cidade, amo o Brasil, amo os brasileiros, amo ter um lugar fixo e agora eu consigo amar e viver uma vida de não-viagem. O que é temporário afinal, minha vida quando estou fixa ou minha vida quando eu viajo? E enfim, descubro que eu não preciso catalogar nada, que as duas vidas se alimentam porque estão interligadas. Eu não aguentaria passar o resto da minha vida viajando sem parar assim como não aguentaria passar o resto da minha vida trabalhando com férias de um mês. Revelação: minha vida pode ser o que eu quiser. Eu faço os meus caminhos.

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Bangkok: Lá e de volta outra vez

E lá estávamos nós de volta ao ponto zero da viagem: Bangkok meu amor. É muito estranho viajar para um lugar e voltar lá depois de um tempo, ainda mais estranho porque Bangkok foi nossa primeira e última cidade.

Quando estávamos em Pequim, nossa última semana na China depois de quase 2 meses, nós não víamos a hora de voltar para o Brasil. Estávamos realmente empolgados com a possibilidade de comer um pão de queijo, almoçar uma feijoada, tomar um guaraná e tomar brejas nos botecos sujinhos da cidade com os amigos. Fato: estávamos MUITO cansados da China. O Felipe e a Mariana – um casal de brasileiros que conhecemos em Chengdu e que já estavam na estrada há mais de um ano – pareciam estar mais empolgados que a gente. Os caras estavam indo para a Mongólia e falavam da nossa volta do Brasil como se estivéssemos indo para um destino super novo e incrível. O Felipe até parecia se emocionar quando dizia: “Poooorra, vocês vão comer aquele feijãozinho! Que sonho!”. Porra Felipe, vocês estão indo para a Mongólia! rs…

Mas afinal… não havia o Brasil se tornado um destino novo e incrível?

Pegamos um longo vôo pela Air Asia, trash né… Aqueles vôos baixo custo que cobram até para você despachar a própria mala.

Bem, foi na rápida conexão de três horas na Malásia, em Kuala Lumpur que o coração começou a fraquejar… Mas e se… a gente viesse passar um mês na Malásia? Foi o tempo de trocar uns dólares por uns ringgits para poder comprar um sanduíche e já chegava o nosso voo para Bangkok despedaçando os meus sonhos.

Sabe quando você se apaixona por uma pessoa, passa um tempo, vocês não se veem mais, e depois de anos, quando se encontram, é o mesmo frio na barriga? Bangkok. Eu não lembrava o quanto eu amava esse lugar depois de ter passado por tantas outras cidades incríveis. Mas não dá. Não sei se é o contraste com a China, mas Bangkok me pareceu muito mais incrível do que era antes. É aquela emoção rara que sinto em algumas cidades e que me faz ter vontade de chorar só por estar lá. Comer o pad thai de novo… até andar na Khao San Road, que eu achava que já estava de saco cheio, me emocionou. Parecia tudo novo mais uma vez e eu senti aquela força que me faz querer viajar mais léguas por meses.

No nosso único dia completo que tivemos lá visitamos a Bienal de Desenhos no Bangkok Art and Culture Centre, assistimos finalmente uma luta de muay thai e fechamos a noite comendo naqueles restaurantes podrinhos mas que têm o melhor pad thai do mundo.

Preciso falar do muay thay. Da primeira vez que chegamos em Bangkok nós não tínhamos o mínimo interesse em assistir luta. Nunca gostei de lutas e sequer considerei assistir um Muay Thai. Alguma coisa mudou nesse tempo. Eu não acho luta legal, mas consegui entender mais algumas coisas. Primeiro: somos humanos, somos animais, temos instintos e o mundo não é bonito, jamais será. Consigo entender o Muay Thai como parte da cultura e como reflexo dos nossos instintos. Acho que ir no Lumpinee Boxing Stadium e ver o modo como as pessoas ficam enlouquecidas na platéia, me mostra como a luta é um reflexo do animal que contemos dentro de nós. É parte do instinto do homem a luta corporal, mas é uma coisa que tentamos reprimir pelo fato de vivermos em uma sociedade, seria loucura tentar resolver as coisas desse modo. Quero tentar entender a cultura por mais bizarro e chocante que ela seja para mim. O fato dos chineses escarrarem no chão toda hora ou comerem cachorro não deve ser condenado, o Muay Thai também não. E foi com esse espírito que fomos assistir a luta.

O Lumpinee Boxing Stadium foi uma das experiências mais incríveis que tivemos na viagem. Pagamos 1000 bahts pelo ingresso, o mais barato que tinha, para assistirmos à luta no terceiro anel. Você também pode pagar 2000 bahts, vai ficar do lado de um monte de gringos, na frente do palco e nenhum local vai puxar assunto com você ou gritar no seu ouvido, ou seja: zero de emoção!
IMG_5586 IMG_5593Ficar no terceiro anel, implica em ter uma grade meio chata na sua frente, mas é onde a galera vai gritar, fazer as apostas loucamente e tentar conversar com você, acho que estar lá valeu muito mais do que ver a luta propriamente dita, você entra no clima e é um negócio meio Clube da Luta, as arquibancadas meio sujas, um lugar meio escuro, parece até que você está assistindo uma luta clandestina. É muito bom, dá uma adrenalina terrível ver a luta dali, coisa animalesca mesmo como eu disse antes. Bangkok fechada com a chave que eu não esperava.

Até o último momento eu ainda estava esperançosa de tentar convencer o Ro a viajar mais um mês. Chorei muito na última noite em que passamos em Bangkok, como quem está terminando um relacionamento mesmo. No dia seguinte, dia de pegar o avião, esfriei. Não chorei mais. Consegui entender que ainda teríamos que ter a chamada vida normal pela frente, e que eu não poderia considerar isso uma merda pelo resto da minha vida. Uma hora teria que voltar para a realidade não? A menos que eu decidisse passar anos levando uma vida nômade, mas eu tenho vontade de ter um lugar pequeno e confortável para receber os amigos, uma cozinha agradável para cozinhar e filhos para daqui uns pares de anos. Também não vou parar com as viagens jamais, mas tenho que conciliar isso com aspectos de uma vida tradicional e tornar a vida leve e doce. Lembro que o monge me disse que eu não devia me preocupar por antecipação, ficar ansiosa pelo futuro, que eu devia viver o presente. É muito óbvio e fácil dizer “viva o presente”, mas como fazer isso? Finalmente entendi. Acho que nunca estive tão conectada ao meu presente. Não quero vivê-lo mais em função de um futuro que eu espero acontecer. Passei meu último ano antes de viajar levando o presente nas coxas, pensando que eu só estava vivendo aquilo para esperar o futuro, a viagem. Foi meu último presente desperdiçado.
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